Lúcio Cardoso: sangue de aventureiro, cigano ou saltimbanco

A inquietude é traço marcante nos Diários de Lúcio Cardoso. Os projetos nem sempre concluídos, as inúmeras cidades visitadas e a própria versatilidade do artista, que se desdobra entre as tarefas de dramaturgo, escritor, diretor de cinema, jornalista e poeta, são reveladores do espírito inquieto que o habitava. Nascido a 14 de agosto de 1912, na cidade mineira de Curvelo, Joaquim Lúcio Cardoso Filho teve ainda na infância a manifestação dessa vida que não se fixava.

Filho de Maria Venceslina Cardoso e de Joaquim Lúcio Cardoso, ele viveu durante sua formação inicial acompanhando a família em constantes mudanças entre as cidades de Curvelo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Os deslocamentos da família Cardoso eram devidos ao espírito aventureiro do pai de Lúcio, que não se fixava em nenhum emprego ou negócio que se propunha realizar. Maria Helena Cardoso, irmã de Lúcio, narra suas memórias no livro Por onde andou meu coração. Nele mostra a curiosa personalidade desse pai que, entre longas ausências devido a trabalhos e algumas infidelidades no casamento, levava a família consigo a diversas cidades. A cultura do pai, que tocava piano e conhecia literatura, impressionava os conhecidos da família.

Lúcio Cardoso, como vemos, herdou do pai não apenas o nome. O gosto pelas artes e a inquietação são também características comuns a ambos. Em seus Diários, o dramaturgo mineiro reconhece sua própria personalidade quando se define como possuidor de um sangue aventureiro, de cigano ou saltimbanco, aliado a uma diabólica fantasia que o fazia considerar-se capaz de tudo, embora sua experiência muitas vezes revelasse o contrário.

Em certo momento de sua vida, entre 1949 e 1951, Lúcio Cardoso escreveu o Diário I, que foi publicado em 1961. Sua intenção era a de escrever uma série de diários, mas ficou impossibilitado de realizar tal tarefa por sofrer um derrame cerebral em 1962, cujas sequelas impossibilitaram o exercício da escrita. Com o falecimento do escritor em 28 de setembro de 1968, o Diário II, escrito entre 1952 e 1962, foi organizado por Otávio de Faria, e ambos foram publicados postumamente sob o título Diário Completo, em 1970.

A escrita do próprio diário, inclusive, pode ser reveladora de uma necessidade de fixar-se. Ao fazer um ano da data em que iniciara o diário, por exemplo, o diarista reflete sobre as motivações para sua escrita. Segundo Lúcio Cardoso, o sentimento de ser percorrido por tendências e opiniões tão contraditórias teria sido a origem de seus diários, que nasceram justamente de seu esforço para fixar-se. Vemos, assim, no próprio deslocamento físico que acompanhou o escritor durante sua vida, a representação das contradições interiores por ele vivenciadas, inclusive no conflito entre seu pensamento religioso e sua orientação sexual.

A escrita de um diário íntimo passa por diversas motivações, seja a vivência de um momento importante, ou a necessidade de construção da própria identidade ao narrar a si mesmo. Embora seja mais comum na adolescência, a escrita do diário não se atém a apenas essa fase da vida. Todos os diaristas, embora escrevam por diferentes razões, têm em comum o gosto pela escrita e a preocupação com o tempo, de acordo com o estudioso de autobiografias Phillipe Lejeune. Sendo uma série de vestígios, não necessariamente regulares, o diário acompanha o fluxo do tempo. Há, portanto, uma tentativa de reter o tempo que passa, o que também está intimamente relacionado à angústia de viver e ao medo da morte.

Relendo as páginas escritas no decorrer dos meses, Lúcio Cardoso indaga sobre quem teria inventado o gênero diário íntimo. Nessa reflexão, o diarista conclui que apenas uma alma tocada pelo desespero do efêmero poderia ter criado o diário. Ele percebe o quanto mudou e perdeu com o tempo que passa e o conduz, inevitavelmente, ao aniquilamento. Essa angústia define o tom melancólico de sua escrita, pois tem a consciência da impossibilidade de resgatar o passado.

À preocupação do diarista com o tempo aliam-se as memórias impossíveis de serem reconstruídas, pois estas consistem em fragmentos cujas lacunas apenas podem ser preenchidas pela imaginação humana. Essa angústia que leva a pessoa a escrever um diário íntimo é maximizada em Lúcio Cardoso por sua concepção de tempo cristã, em que a progressão dos acontecimentos e o escoar vertiginoso do tempo leva unicamente à morte. Presença constante nos diários de Lúcio, a morte ronda a todo o tempo o pensamento e a escrita do autor, cujo medo é responsável por terrores noturnos, manias de perseguição e pela própria tentativa de sobrevivência através da escrita.

Fonte: Revista Capitu

Clique aqui para acessar a localização das obras de e sobre Lucio Cardoso no acervo da Biblioteca José de Alencar.

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